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Subúrbio Ferroviário

A frente de projeto do Subúrbio está vinculado ao projeto de extensão “Habitar Margens: entrelaçando memórias, lutas e políticas do cuidado em territórios populares e negros de Salvador”, que teve como foco a potência formativa e ético-política dos cruzamentos entre distintas atuações e territórios populares e negros da cidade. Também teve como horizonte a experimentação de construções abertas e efetivamente partilhadas, pensadas não apenas como lócus de práticas, senão também como espaços de produção de conhecimentos sobre a cidade e suas margens, mantendo o foco na potência formativa.

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A chegada ao Subúrbio Ferroviário de Salvador, bem como a decisão em trabalhar com mulheres se deu pelas relações já tecidas nos territórios. Em nossa equipe, temos pesquisadoras-moradoras do Subúrbio e pesquisas de mestrado e doutorado em andamento que direcionam a entender os processos, dinâmicas, práticas, disputas e tensionamentos existentes nestes territórios. Assim, a partir das diferentes relações e aproximações existentes, o que nos leva a esses territórios é a confluência de pesquisa e extensão.

O Subúrbio Ferroviário de Salvador está localizado ao norte da cidade, banhado pela Baía de Todos os Santos, delineado ao oeste pela BR 324. Atualmente é composto por mais de 20 bairros e cerca de 500 mil habitantes. 

É um território de origem afroindígena, amplo e diverso, sendo composto por diversos territórios particulares, cuja população é majoritariamente negra. Consideramos o Subúrbio um território de territórios negros, devido à sua amplitude, complexidade e heterogeneidade e tendo em vista as elaborações de vida que historicamente o constituíram e habitaram, como por exemplo os quilombos, as atividades laborais ancestrais de pesca e mariscagem, a abundância de terreiros de candomblé e umbanda, os modos de habitar à beira-mar e a forte presença de movimentos sociais e culturais. O atributo de Ferroviário se deve à histórica linha férrea que, até fevereiro de 2021, atravessava o Subúrbio e dava uma identidade comum à sua heterogeneidade.

Um dos direcionamentos do trabalho foi a aproximação das mulheres com as quais já existiam parcerias pré-existentes, seja através do Margear, das pesquisas de mestrado e/ou doutorado, ou pela relação junto ao território, como foi o caso de Caroline Santos, que além de integrante do projeto, é moradora do Subúrbio e foi uma das responsáveis pela conexão com as coletividades do Subúrbio. As lideranças femininas, que integram as coletividades com as quais construímos este projeto de extensão são elas: Quintal Sensorial, com Ivana Magalhães; Acervo da Laje, com Vilma Santos; Preta Paleteira, de Lorena Cerqueira, que também compõe a equipe do Margear; Mulheres da APA, de Caroline Souza, que faz parte do Margear e foi bolsista do projeto de extensão; Guardiões da APA Bacia do Cobre, com Annemone e Dona Mira; Studio de Arte Dboa, com Eliana Juriti; além de moradoras da região como a fotógrafa Ilca Couto e Aline Bahia, moradora do Subúrbio e colaboradora do Acervo da laje. Para além de estarem localizadas em distintos bairros do amplo e diverso território popular e negro do Subúrbio Ferroviário, essas iniciativas têm em comum a agência de mulheres, e a articulação entre espaços de moradia e práticas coletivas de cuidado enquanto implicação política cotidiana com seus territórios

Ivana Magalhães

Quintal Sensorial

Ivana Magalhães é mulher negra, pedagoga e artista. Veio com sua família do Recôncavo para o Subúrbio Ferroviário de Salvador com 1 ano de idade. Sua trajetória de moradia foi marcada por habitações no centro de Salvador e no Subúrbio, sendo que no Subúrbio o quintal, enquanto um espaço afetivo, coletivo e familiar, era uma presença marcante no modo de habitar. É a partir daí que ela cria o Quintal Sensorial, no terreno de sua casa no bairro de Itacaranha.

O Quintal Sensorial foi fundado pela artista e pedagoga Ivana Magalhães e está localizado no quintal de sua casa no bairro de Itacaranha. É um espaço de vivência com a natureza, de resgate e manutenção da memória vegetal, onde são realizadas oficinas de arte com materiais da natureza, de reciclagem, e de compartilhamento de saberes. 

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como chegamos

processos metodológicos

processos metodológicos

Partimos do encontro entre mulheres como orientação para a construção metodológica dos espaços de troca, diálogo e realização das oficinas nos territórios do Subúrbio. A cada encontro, os materiais eram acumulados e serviam de base reflexiva para as próximas oficinas, bem como davam subsídio para compreensão do território, sobretudo pela perspectiva do olhar, da memória e da relação das mulheres para com o local.

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Iniciamos os encontros com uma roda de conversa com as representantes de cada iniciativa e demais moradoras para pactuar as expectativas, sendo esta atividade realizada no jardim do Quintal Sensorial.

Dividimos esse primeiro encontro em três momentos:

uma breve apresentação do projeto e seus objetivos; uma breve apresentação de cada moradora (nome, bairro, idade); e uma fala mais aprofundada da moradora sobre sua trajetória, buscando  compreender de que modo são construídos os modos de habitar e suas relações de cuidado com o território.

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Agrupamos documentos históricos, fotografias, notícias de jornais e outros fragmentos, em algo que chamamos de “Arquivo Ambulante”, que imaginávamos, pela nossa relação prévia com as moradoras, poderiam suscitar memórias, questões, reflexões sobre as trajetórias das moradoras e sobretudo, a relação delas com os territórios do Subúrbio. Também dispusemos um papel metro no centro da roda, onde as moradoras puderam fazer registros e conceberam uma forma de mapa mental. 

Para registro deste momento, fizemos a gravação, em áudio (mediante autorização por escrito das participantes), de toda a oficina. A transcrição e o material gerado desta oficina contribuíram para a digitalização e complementação do mapa mental na ferramenta virtual Invision, utilizada pelo grupo para registar os processos da pesquisa. Essas estratégias contribuíram para a partilha de memória e trocas de experiências, vivências e modos de habitar no e com o território de cada moradora e fez emergir informações que, reunidas, formaram uma Cartografia Cruzada, capaz de ser territorializada na confecção coletiva de uma cartografia prevista para o segundo encontro.

O primeiro encontro contou ainda com o registro fotográfico realizado por Ilca Couto. Suas fotografias, somadas às imagens presentes no acervo documental do Arquivo Ambulante que representavam espaços, memórias e eventos importantes dos territórios de cada moradora, compuseram uma exposição produzida pela equipe proponente do projeto no Acervo da Laje, no dia do segundo encontro. Cada moradora pôde escolher algumas fotografias para levar para casa. 

O segundo encontro teve como objetivo a realização de uma oficina para cartografar as dimensões e questões em torno dos modos de habitar trazidos pelas moradoras no primeiro encontro, como suas memórias, trajetórias e espaços de significado pessoal e coletivo. Como metodologia para essa construção, usamos diferentes técnicas de representação, desde desenhos à escrita e colagens, utilizando os fragmentos levados no encontro anterior, acionamos a multilinguagem para contribuir na forma de expressão das mulheres. Como materiais, levamos papéis, canetas, lápis coloridos, o mapa da região do Subúrbio com os bairros delimitados impresso em papel formato A0,  revistas e fotografias impressas.

Uma das principais premissas dos encontros realizados foi não chegar com expectativas rigidamente preestabelecidas, mas deixar com que o momento em coletividade incidisse no processo, ou seja, que todas as mulheres envolvidas pudessem conduzir a dinâmica e cocriar os caminhos e objetivos juntas. No caso da oficina cartográfica, o encontro com os fragmentos levados suscitaram diversas questões, sentimentos e memórias das mulheres e, por isso, o enfoque se tornou a produção de colagens por meio do diálogo entre as imagens, deixando a base do mapa para ser explorada no terceiro encontro.

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No terceiro encontro, realizado no Acervo da Laje, optamos, enfim, por dar protagonismo à cartografia das questões trazidas pelas moradoras nos encontros anteriores por meio da produção cartográfica coletiva. Os materiais utilizados foram o mapa A0, canetas coloridas, adesivos coloridos com uma legenda e post its coloridos, onde cada moradora pôde escrever e desenhar memórias, significados, momentos importantes de suas trajetórias e territorializá-los no mapa. Essa estratégia metodológica vai de encontro com o que as mulheres falaram na primeira roda, quando trouxeram que as narrativas e imaginários associados ao Subúrbio são majoritariamente

ligados ao lugar da violência, da precariedade e da falta, desconsiderando as existências

e potencialidades ali presentes. Assim, criar uma cartografia a partir das memórias

e dos espaços que as mulheres moradoras consideram importantes

foi uma forma de visibilizar/evocar outras narrativas e entendimentos

acerca do território do Subúrbio.  

elaborações coletivas

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A articulação entre as moradoras do Subúrbio e suas respectivas organizações e iniciativas é um dos principais resultados alcançados deste projeto, já que, por estarem localizadas em bairros distintos, às vezes distantes - ainda que no Subúrbio -, muitas não se conheciam pessoalmente ou mesmo não conheciam os projetos encabeçados por cada uma. Nesse sentido, reconhecemos que os encontros e oficinas realizadas foram fagulhas capazes de potencializar essas iniciativas e articulações, para além dos benefícios para a universidade. Portanto, ressaltamos a dimensão ético política de proporcionar espaço e tempo para que as mulheres pudessem partilhar seus conhecimentos, trajetórias de vida, modos de habitar, práticas de cuidado e políticas do cotidiano. Além disso, o fortalecimento da aliança entre essas coletividades e a própria universidade é um dos resultados conquistados pelo projeto, cabendo destacar ainda o amadurecimento de metodologias de co-criação em multilinguagens.

Na preocupação e compromisso de fortalecer as alianças entre essas coletividades e a própria universidade, buscamos construir materiais por meio de multilinguagens que possam contribuir com as lutas e projetos realizados pelas mulheres e suas coletividades. Os materiais foram criados a partir das narrativas e trajetórias das moradoras e dos dados  produzidos nos encontros e oficinas, e dizem respeito a seu cotidiano, lutas e anseios.Ao final das oficinas, produzimos a "Caixa da Memória", entregue para cada mulher, sendo esta composta por diferentes fragmentos: fotos dos encontros e das mulheres; colagens produzidas por elas na oficina; postal com montagens de fotos referentes ao Subúrbio e articulado às memórias trazidas por elas durante os encontros; fichas apresentando as mulheres, suas coletividades e as atuações no território; uma teia de relações e os cruzamento de suas trajetórias, entre outros fragmentos, como conchas e elementos da materialidade do território.

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Por fim, para além dos produtos, cabe destacar que, ao experimentarmos construir coletivamente metodologias e conhecimentos na colaboração entre universidade e coletividades/territórios, os resultados alcançados se mostram importantes tanto para a universidade quanto para as coletividades, pois contribuem política e eticamente com suas lutas por meio da construção de ferramentas e de espaços de afeto, partilha de percepções sobre o território, trajetórias e vivências. A elaboração coletiva de conhecimentos sobre a cidade a partir das margens possibilita fomentar novas imaginações políticas, influenciando debates públicos sobre a agenda urbana em Salvador e região metropolitana, bem como a formação ampliada em arquitetura e urbanismo, tensionando abordagens cristalizadas acerca dos territórios negros e populares, que ainda os percebem na chave moderno-colonial, racista e classista, do problema/solução (Jacques, Rosa, 2017).

vídeo mostrando a caixa

REFERÊNCIAS 

JACQUES, Paola; ROSA, Thaís. Desvios e Limiares: O ensino do urbanismo e do projeto urbano
como campo de experimentação. Bloco (13): o ensino e a prática de projeto. Novo Hamburgo:
Feevale, 2017, p. 184-203.

SANTOS, José Eduardo, et al. Acervo da Laje: espaço e memória do Subúrbio Ferroviário de Salvador. In: FERNANDES, Ana.; FIGUEREDO, Glória Cecilia.; ESPINOZA, José Huapaya. Práticas coletivas e o direito à cidade em Salvador, Bahia. Salvador: Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Arquitetura. Programa de Pós-graduação, 2016.

SANTOS, Eduardo Ferreira. O Acervo da Laje e as periferias insurgentes. Arcos Design, 2021;
Disponível em: <https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/arcosdesign/article/view/
66281/42283)> Acesso em 27 de janeiro de 2023.

elaborações Coletivas

© 2024 por Luísa Caria e Grupo Margear

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